sexta-feira, 12 de maio de 2017

uma era anterior às gaiolas e aos domingos

estancou a chuva que de noite
não parou de cair

o laranja barrento das telhas
alinhadas sobre a janela e este azul subido
entre farrapos
deram à manhã uma inclinação
mirífica

dentro os periquitos tremem
de excitação e frio
gritam proposições de júbilo cosmogónico
narram uma era anterior às gaiolas
e aos domingos

apetecer-lhes-ia a fome que têm lá fora
as aves naturais

e não este almoço (uma coisa
em forma de assado) que alguém
vem preparando na cozinha

pôs-se um dia admirável nas ruas
perfeito para clichês:
tudo encharcado de brilhos
contraluzes arbóreas voos pombalinos
bustos reflectidos nas poças

cá dentro os casos
também tendem a lugares-comuns:
a cama desfeita a roupa largada
no chão

sobre o aparador o bule
que ontem serviu e outras loiças
a imitar uma tela de Morandi
a espessura de um vapor recente
na casa de banho

embaciada a fuligem deste espelho
sobre o lavatório

é o lago dos tisnes com que remato
o poema

perdoe o sensato leitor eu insistir
ali e aqui no gracejo fútil
Miguel-Manso, Persianas.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

De resto, os aguaceiros serão sempre uma possibilidade

Dave Heath, Washington Square, 1958.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Míscaros

Vento sul-sudoeste fraco; céu nublado. Tempo de míscaros. Matérias orgânicas que alastram nos muros e nos fossos, bolores negros, lodos, fungos, vidas persistentes, possuídas de uma animação vegetal crescendo sobre a decomposição, sobre a ruína, nos lôbregos refegos da terra, nos podres esconsos, nos charcos parados, debruados de lamas. Como míscaros, os homens parecem brotar na rua, ressumar das pedras, pardos e cor de azebre, cor de pão de rala, com as suas faces vazias, as mãos que são como raízes impregnadas de água.
Agustina Bessa-Luís imprecando, Contos Impopulares

terça-feira, 9 de maio de 2017

A shoddy replacement for any sophisticated understanding of history

Today’s constant talk of nostalgia – for old passport covers, old manners, old food, and above all that fantasy of a Britain before multiculturalism – is in part a response to rapid social change and feelings of insecurity. In part, it is what anyone who is growing older might feel, as their childhood becomes vividly distant. But these nostalgic images are a shoddy replacement for any sophisticated understanding of history – the complex story of the past, and the intricate forces that link the past and the present – and that is why we should be worried when politicians play the nostalgia card.
Simon Goldhill, Look back with danger.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Georgia on my mind *

Alfred Stieglitz: Georgia O'Keeffe, 1931.
* O trocadilho é fraco, mas a fotografia é muito bonita. E que lhe tenha sabido bem a limonada (suponho limonada), minha cara senhora: o que se leva desta vida é o que ao longo dela nos foi matando a sede.

Uma overdose de Pizarnik

The myth of Alejandra Pizarnik grows (...) because the strengths of her language, a few “solitary ladies, desolate,” resist the passage of time. These solitary, desolate ladies were words, which, in turn, were subjects for her. Each word a subject. Sleep, death, infancy, terror, night. She combined these subjects tirelessly with a great trust in language, which paradoxically ended up awaking in her the suspicion that her words had a mortal dimension and that perhaps the only thing they named was absence.
Enrique Vila-Matas sobre Alejandra Pizarnik, aqui.

domingo, 7 de maio de 2017

Domingo no mundo (8)

James MacNeill Whistler, Arrangement in Grey and Black No.1/Portrait of the Artist's Mother, 1871.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Cuidar da bicharada

Estoy enfermo, en la cama, en el quarto pequeño. ¿Gripe, anginas? Una vaca está también enferma en el establo. Se hace venir al veterinario. Después de que ha atendido a la vaca, el tío Baptiste hace subir al veterinario a mi habitación. Es muy alto y muy delgado, de cuarenta y cinco a cinquenta años de edad, con un bigotito castaño. Dice que no es nada grave, después de haber mirado mi garganta y de haberme tomado el pulso.
Ionesco, Diario; trad. Marcelo Arroita-Jauregui.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

High Hopes

Bernstein’s heyday was in a time of high hopes. John F. Kennedy’s Camelot was meant to usher in a new world order; Norman Mailer was supposed to write the Great American Novel. Bernstein, similarly, was expected to catapult American music to a new level of excellence and prestige. But high hopes are invariably bound to be dashed. Kennedy was assassinated; Mailer petered out; Bernstein scattered his energies.
Paula Marantz Cohen, My Cousin Lenny.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

e posto sobre o mundo

Irmão limpo das coisas
Sem pranto interior
Sem introversão

Este que está inteiro em sua vida
Fez do mar e do céu seu ser profundo
E manteve com serena lucidez
Aberto seu olhar e posto sobre o mundo.
Sophia de Mello Breyner Andersen, "Pescador",  Livro sexto.

terça-feira, 2 de maio de 2017

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A Semiotics of the Dramatic Text *

In 1981 the research field of “nuclear semiotics” was born. A group of interdisciplinary experts was tasked with preventing future humans from intruding on to a subterranean storage facility for radioactive waste, then under construction in the New Mexico desert. The half-life of plutonium-239 is around 24,100 years; the written history of humanity is around 5,000 years old. The challenge facing the group was how to devise a sign system that could semantically survive even catastrophic phases of planetary future, and that could communicate with an unknown humanoid-to-be.

Several proposals involved forms of hostile architecture: a “landscape of thorns” in which 15m-high concrete pillars with jutting side spikes impeded access; a maze of sharp black rock blocks that absorbed solar energy to become impassably hot. But such aggressive structures can act as enticements rather than cautions, suggesting here be treasure rather than here be dragons. Prince Charming hacked his way through the briars to wake Sleeping Beauty. Indiana Jones braved wooden spikes and rolling boulders to reach the golden idol in a booby-trapped Peruvian temple. Sometimes I wonder if the design task should be handed wholesale to the team behind the Ikea instruction manuals: if they can convey in pictograms how to put up a Billy bookcase anywhere in the world, they can surely tell someone in 10,000 years’ time not to dig in a certain place.

* O título do post veio-me automaticamente do fundo da memória: é o do primeiro livro que requisitei na biblioteca da Universidade. Dois mistérios permanecerão para as eras: 1) requisitei este livro porquê, se não fazia a menor ideia do assunto e não tinha a menor tenção de o ler (de facto, não o li, embora o tenha aguentado em casa renovação de empréstimo após renovação de empréstimo durante sei lá quantos meses)?; 2) por que raio me lembro perfeitamente deste e apenas deste título, se fui requisitando ao longo dos anos tantos outros segundo o mesmo despropósito? Hum?